Eu queria um Natal diferente.
Já não suportava mais aquelas noites previsíveis, em que as mulheres da minha família se sentavam em volta da mesa para repetir as mesmas queixas: os maridos ausentes, a vida pesada, o cansaço acumulado como se fosse herança.
Não queria mais aquela vigília sem graça.
Queria algo vivo.
Então decidi passar comigo mesma.
Foi quando ele apareceu.
Chegou com aquela presença impossível de ignorar. O corpo ocupava o espaço antes mesmo de qualquer palavra. Havia algo nele que chamava atenção de longe — não só o tamanho, mas a forma como se movia, como olhava, como parecia confortável dentro de si.
Nós nos conhecemos porque uma amiga insistiu. Disse que eu precisava conhecê-lo. Disse que ele era “saboroso”. Falou com aquele brilho no olhar de quem já tinha experimentado algo bom demais para guardar só para si.
Eu ri.
Achei exagero.
Não levei muito a sério.
Até que um dia estávamos nós duas na praia, bebendo mais do que o planejado. O sol já baixo, a areia ainda quente, o corpo relaxado demais para resistir a impulsos.
— Por que não? — eu disse. — Manda ele pra cá.
Quando ele chegou, a energia mudou.
Conversamos pouco.
Rimos.
Encostamos.
A interação foi natural, fácil, quente. Como se os corpos já se conhecessem antes da apresentação formal. Quando percebemos, estávamos a caminho de um hotel.
No estacionamento, ele me puxou para perto. O beijo foi direto, firme, sem ensaio. Minhas costas tocaram o carro frio, contrastando com o calor do corpo dele. A vontade era de não subir, de não esperar, de deixar ali mesmo.
Subimos.
No quarto, o tempo começou a perder sentido. Primeiro, ele se voltou para ela. Eu observava, sentindo o corpo reagir em ondas, o chão se tornando escorregadio, o ambiente carregado de cheiro de pele, respiração e entrega.
Depois ele se voltou para mim.
E ali não houve pressa.
Foi longo.
Foi intenso.
Foi inteiro.
Mais tarde, eu fui para a banheira. A água quente abraçou meu corpo enquanto eles continuavam. Ficamos horas assim, alternando presença, troca, descanso, retorno.
Aquilo ficou gravado em mim.
Dias depois, já perto do Natal, depois de uma confraternização com meus colaboradores, eu tinha bebido mais do que de costume. A coragem veio junto. Mandei mensagem. Pedi para vê-lo.
Chovia quando ele chegou.
Veio de moto, completamente encharcado. O cabelo molhado, a roupa colada ao corpo, o cheiro de chuva misturado com rua e desejo.
Sugeri a piscina.
Aquecida.
Esqueci — ou talvez não — que um dos meus maiores fetiches era a chuva.
A água caía do céu enquanto a piscina soltava vapor. A pele dele ainda fria do lado de fora, quente ao encostar na minha. A chuva batendo no rosto, no pescoço, misturando tudo.
Ali eu realizei algo que o corpo guardava há muito tempo.
Foi simples.
Foi bruto.
Foi maravilhoso.
Perto do Natal, tudo o que eu queria era sentir aquela presença de novo. Comprei uma garrafa do meu uísque favorito. Fomos para a praia. Sentamos na areia, bebendo devagar, conversando.
Ele falava da vida dele.
Eu falava da minha.
Até que o clima mudou.
O desejo subiu silencioso, denso. Meu corpo começou a pedir mais do que conversa. Eu queria ali. Queria agora. Mas era público. E ele, cuidadoso, tentou me proteger.
O toque foi contido. Provocador o suficiente para me deixar inteira em tesão.
Fomos para o apartamento.
A noite se estendeu. O corpo não queria dormir. Só existir naquela frequência.
Aquele Natal foi diferente de tudo.
Não teve mesa pesada.
Não teve reclamação.
Não teve papel social.
Teve presença.
Teve escolha.
Teve corpo vivo.
Até então, tinha sido o melhor Natal da minha vida.








