Quando o corpo não pediu permissão à amizade

Ele chegou como sempre chegava.
Sem pressa.
Com aquele jeito confortável de quem já conhecia o espaço, o sofá, o cheiro da casa e, de alguma forma, também a mim.

Sentou-se perto, jogou a mochila no chão e começou a falar de coisas banais. Do dia, do trânsito, de uma aula nova que tinha começado. Eu ouvia, mas havia algo diferente no ritmo da voz dele. Um entusiasmo contido, quase exibido com cuidado.

Em algum momento, ele sorriu de canto e disse, como quem comenta algo sem grande importância:

— Comecei a estudar umas técnicas novas de massagem.

Meu corpo reagiu antes de qualquer resposta racional.
Não foi um movimento visível, foi interno. Um ajuste silencioso. Um calor discreto que se espalhou pelo ventre.

— É mesmo? — perguntei, fingindo curiosidade neutra.

Ele continuou falando, descrevendo pressões, respiração, presença, intenção. Disse que o toque não era só físico. Que o corpo respondia quando se sentia escutado. E então, sem me olhar diretamente, comentou:

— Inclusive, enquanto eu aprendia, pensei em você.

Aquilo atravessou minha pele como um arrepio lento.

Eu ri. Um riso leve, quase defensivo.
Perguntei como assim.
Ele explicou que imaginou minhas costas, minha postura, a forma como eu costumava relaxar quando confiava. Falou tudo isso com naturalidade demais para não ser provocação.

— Quer que eu te mostre? — ele perguntou, enfim.

Eu disse que sim.
Disse como quem aceita uma demonstração.
Mas por dentro, a verdade já pulsava: eu queria sentir a mão dele no meu corpo. Queria o toque antes mesmo de saber como ele aconteceria.

Fomos para a sacada. O ar da noite estava morno, a cidade respirava lá embaixo, e aquela exposição inesperada deixou tudo mais intenso. Eu me sentei de costas para ele, sentindo o vento tocar minha pele enquanto ele se aproximava.

O primeiro toque foi firme e lento.
Nada apressado.
Nada invasivo.

As mãos dele pousaram nas minhas costas com presença. Eu senti o peso certo, o calor, a intenção clara de quem não estava ali só para testar uma técnica. Meu corpo cedeu quase sem resistência.

Cada movimento parecia medir minha reação.
Cada deslizar de mão era acompanhado de uma pausa curta, como se ele esperasse meu corpo responder antes de seguir.

E ele respondeu.

O tesão começou a subir devagar, como uma corrente elétrica subterrânea. Não era explícito ainda, mas era inegável. A cada toque mais longo, a cada pressão mantida por segundos a mais, algo em mim se abria.

A sacada, o risco de sermos vistos, o espaço aberto… tudo amplificava.
Meu corpo começou a ficar mais quente.
A respiração mais profunda.
E quando percebi, já não era só relaxamento.

Minha buceta pulsava.
Viva.
Molhada.

Tudo o que eu queria era que ele colocasse o dedo ali. Que sentisse como meu corpo já tinha decidido antes de mim. Que me tocasse mais fundo, mais íntimo, de outras formas.

Parte de mim gostava da ideia de alguém ver.
De não esconder o desejo.

Mas o medo do julgamento veio junto. Antigo, automático. Um freio aprendido.

— Vamos entrar — eu pedi, com a voz um pouco mais baixa do que pretendia.

Assim que a porta se fechou, algo mudou.
O mundo ficou distante.
O tempo perdeu bordas.

Ali dentro, não havia mais contenção.
O toque ganhou outra densidade.
As mãos dele exploravam com mais verdade, lendo cada resposta do meu corpo, cada contração involuntária, cada respiração que falhava.

Eu já não fingia neutralidade.
Meu corpo se entregava em ondas silenciosas.
E ele acompanhava tudo com uma atenção quase devota.

Não havia pressa.
Não havia objetivo.
Só presença.

Parecia que o tempo tinha pausado. Como se não houvesse começo nem fim, apenas aquele intervalo suspenso em que só a gente existia.

Quando nos afastamos, não foi por falta.
Foi porque aquele momento já estava inteiro.

Fiquei ali depois que ele saiu, sentindo meu corpo ainda pulsar, quente, desperto. Não havia arrependimento. Nem urgência de continuidade.

A amizade permanecia.
Mas agora carregava um segredo gravado na pele.

Algumas experiências não precisam continuar para permanecer.
Elas vivem melhor assim:
no corpo,
na memória,
na imaginação — prontas para serem revisitadas quando o desejo voltar a chamar.

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