Acordei com o corpo em estado de alerta.
Não era ansiedade.
Era tensão acumulada.
A pele parecia elétrica, como se qualquer toque pudesse virar faísca. Eu suava sem calor, me mexia na cama sem achar posição. Tudo em mim queria se esbaldar. Queria excesso. Queria verdade.
Era dia de evento.
Duas casas.
Duas possibilidades de existir sem tradução.
Tudo o que eu queria era ser eu.
Inteira.
Livre.
Sem explicar.
Comecei o dia na praia. Levei meu som, minha leitura sobre Madalena, o sol batendo forte, o sal grudando na pele. Abri o aplicativo por curiosidade — e lá estava ele. O médico. Perto. Num clube.
Observei a tela por alguns segundos.
Fechei.
Eu queria ficar ali.
Sozinha.
E ao mesmo tempo… não.
Havia desejo.
Havia solitude.
Havia essa contradição viva que ainda não sei nomear.
Minha amiga chegou. Linda. Presença de deusa. Um misto de princesa com índia. Às vezes penso “quem sabe”. Às vezes sinto que não quero atravessar esse lugar com ela. É como se eu a quisesse — e não quisesse ao mesmo tempo. Um limite sutil que ainda pulsa dentro de mim.
Fiquei mais um tempo.
Depois fui pra casa.
Assisti mais Madalena.
O corpo ainda vibrava.
À noite, eu estava pronta.
Quando cheguei à primeira casa, já tinha alguém me esperando. Ele sabia que eu apareceria. Eu tinha comentado antes. Ele estava ali só por isso.
Cumprimentei.
Ele sorriu, tímido.
Não teve coragem de se aproximar.
Eu segui.
Encontrei amigos.
Bebi.
Dancei.
Me deixei circular.
Fui para a sala de fetiche. A do X. Sempre gostei daquele espaço. Algo ali me chama. A estrutura, as correntes, a forma como o corpo é convidado a se expor.
Ele estava lá.
Cheguei mais perto. Sondando.
Nos beijamos.
Ele me encostou.
Segurei as correntes.
O toque veio cuidadoso, explorando, lendo minha reação. Aos poucos, outros homens começaram a aparecer. Olhavam. Se aproximavam. Alguns se tocavam discretamente. Aquilo me excitou de um jeito intenso.
Era tesão.
Era medo.
Era uma alegria estranha por estar ali, sendo vista, desejada — e ainda inteira.
Ele ficou inseguro.
Eu queria que ele avançasse mais.
Mas ele preferiu recuar.
Saímos.
Bebi mais.
Tequila descia quente.
Combinei com outro amigo de ir para a segunda casa.
Cheguei e a música me pegou antes de qualquer pessoa. E então vi ele. Negro. Alto. Corpo solto. Dançava forró como quem conhece o próprio centro.
Grudamos.
A dança virou abraço.
O cheiro da pele.
O suor.
A música colando os corpos.
Foi delicioso.
Vi outro amigo querido. Saudade antiga. Tudo que eu queria era pular nele e abraçar forte — nele e na esposa. Fizemos isso. Rimos. Nos beijamos os três. E eu segui. Porque eu sou assim, livre.
Subi a escada e a dona da festa estava lá. Linda. Uma deusa. Me reconheceu. Me abraçou. Aquilo me surpreendeu e me aqueceu.
Vi de novo o homem do aplicativo. A música estava boa demais para subir naquele momento. O tesão entre nós era visível. O corpo dele denunciava desejo. Nos beijamos. Combinei: depois da música.
Quando subi, ele não estava mais.
Mas outro estava.
Lindo. Presente.
Não pensei.
Fui.
Entramos num quarto fechado. Foi intenso. Ele era do Rio. Acostumado com esse mundo. Havia segurança no jeito dele. Ficamos ali um tempo que não sei medir.
Quando saí, o médico do aplicativo reapareceu.
Voltamos.
Foi só depois que percebi: ele era o exibicionista da outra festa. O que tinha deixado todo mundo em pânico. O fetiche dele era mostrar o corpo, provocar o olhar.
Eu ri.
— Então é você…
E ali caiu um preconceito silencioso meu. Porque ele era carinhoso. Atento. Educado. Respeitador. Tudo o que eu queria era ficar mais.
Fomos para um quarto público. Ali, o jogo do olhar fazia parte. E foi intenso.
Vi uma amiga loira. Linda. Seios pequenos, rosados. O marido só olhando. A vontade era de tocar, de lamber, mas respeitei. Preferi elogiar. O desejo também sabe esperar.
Mais bebida.
Mais risos.
Mais corpo.
Tudo o que eu queria era ficar ali.
Sem papel.
Sem explicação.
Sendo eu.
Mas amanheceu.
Encontrei o amigo negro, lindo, cheiroso. Pedi que me levasse pra casa. Ele levou. Só isso. Meu corpo já estava satisfeito.
Deitei.
O corpo não mais fuçava desejo.
Mas agora havia algo mais forte:
a sensação profunda de liberdade.
E isso — isso não passa com o amanhecer.








